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Olho seco

 

De acordo com a mais abrangente definição (The definition and classification of dry eye disease: report of the Definition and Classification Subcommittee of the International Dry Eye WorkShop  – 2007)  olho seco é uma doença multifactorial das lágrimas e da superfície ocular que resulta em desconforto, distúrbios visuais e instabilidade do filme lacrimal, com dano potencial para a a superfície ocular. É acompanhada por osmolaridade aumentada do filme lacrimal e inflamação da superfície ocular. É um problema muito frequente que afecta principalmente adultos e mulheres e que causa impacto significativo na qualidade de vida.

 

Os principais sintomas são a sensação de corpo estranho, ardência, prurido e fotofobia, acompanhadas de imagens desfocadas e fadiga visual. É frequente o lacrimejo o que confunde um pouco os doentes face ao nome deste problema. Na verdade a estrutura do filme lacrimal não é composta apenas por água. É constituída por uma fina camada lipídica superficial produzida principalmente, mas não só, pelas glândulas de meibomius e por uma camada interna mais espessa contendo muco diluído.

 

A disfunção de um sistema integrado que inclui as glândulas lacrimais, a superfície ocular (córnea, conjuntiva e glândulas de meibomius), as pálpebras e os nervos sensoriais e motores que as integram resultam na alteração do filme lacrimal que confere protecção, lubrificação e permite a renovação de células epiteliais da córnea. A doença leva potencialmente a queratite, úlceras corneanas, crescimento de vasos sobre a córnea (desejavelmente transparente), adelgaçamento e até por vezes a perfurações corneanas.

 

O olho seco pode ser relacionado com défice aquoso como ocorre no Síndrome de Sjogren (exocrinopatia na qual um processo autoimune atinge as glândulas lacrimais e salivares com infiltração por células T que destroem as suas células, diminuindo a secreção lacrimal) ou sem características autoimunes como no caso mais comum do olho seco relacionado com a idade, com a hipossecreção reflexa ( por exemplo com uso crónico de lentes de contacto, levando à hipoestesia da córnea ou em doentes diabéticos, em associação com neuropatia autonómica ou sensorial), em casos de drogas sistémicas ou obstruções do ducto lacrimal. Por oposição também pode ser evaporativo, relacionado com deficiência lipídica (glândulas de meibomius), alterações palpebrais, baixa frequência no pestanejar (actualmente com grande incidência em relação com o uso intensivo de computadores), deficiência de vitamina A, acção de agentes tóxicos locais (como alguns produtos conservantes que podem induzir uma resposta toxica), uso de lentes de contacto, alergias oculares ou muitas outras causas.

 

O diagnóstico baseia-se nos sintomas e na observação à lâmpada de fenda, realizada pelo Oftalmologista. Apoia-se principalmente na analise dos resultados de testes que analisam o fluxo, o turnover ou a estabilidade lacrimal (estudo do menisco lacrimal, testes de schirmer e analise dos tempo de ruptura do filme lacrimal (em inglês, tear film break-up time, BUT,) e os danos na superfície (em evidência com corantes).

 

A Prevenção inclui a eliminação de factores que diminuam a produção lacrimal ou a sua evaporação, como o uso de medicações sistémicas anticolinergicas (antihistaminicos ou antidepressivos, por exemplo) ou o controlo da humidade (cuidado nos espaços com ar condicionado).

Os ecrãs de computadores e outros ecrãs vídeo devem ser usados a um nível inferior ao dos olhos, diminuindo o espaço entre as pálpebras e a evaporação. No trabalho de leitura ou ao computador devem realizar-se pausas com os olhos fechados.

 

O tratamento consiste principalmente na prescrição de lubrificantes, evitando os que têm agentes conservantes. A denominação de lágrimas artificiais não é adequada, pois a maioria dos produtos existentes não pretendem ter composição semelhante àquela. Nalguns casos poderão ser utilizadas técnicas de aumento da retenção (como oclusões dos pontos lacrimais, que conduzem o filme lacrimal até ao saco lacrimal, de onde segue para as cavidades nasais), mas com complicações potenciais. Outras terapêuticas passam pela utilização de estimulantes da secreção, substitutos biológicos, ácidos gordos essenciais ou anti-inflamatórios.

 

Estão publicados e em curso inúmeros ensaios clínicos, comparando terapêuticas entre lágrimas artificiais de diferentes viscosidades ou com outras modalidades de tratamento como oclusão de pontos lacrimais, ciclosporina tópica, medicações sistémicas, entre outras.

Face à importância do olho seco continuam a aplicar-se muitos recursos em estudos e investigações. O mau estar, as perdas de produtividade e de performance visual, como por exemplo, redução da capacidade de leitura ou condução, justificam-no. Continuando a ser um problema à procura de melhores soluções, espera-se do futuro respostas e alternativas terapêuticas ainda mais eficazes.

 

 

 

Tratamento de acordo com gravidade:

 

A

Educação; modificações ambientais e dietéticas

Eliminação de medicações sistémicas

Utilização de Lubrificantes lacrimais artificiais

Tratamento dos problemas palpebrais

 

B

Se os tratamentos anteriores forem insuficientes pode-se acrescentar:

Anti-inflamatórios, Tetraciclinas, estimulantes da secreção

Oclusão de ponto lacrimal

 

C

Se os tratamentos anteriores forem insuficientes pode-se ponderar:

lentes de contacto terapêuticas esclerocorneanas

Soro autólogo

Oclusão permanente de ponto lacrimal

Anti-inflamatórios sistémicos

Cirurgia (pálpebras, membrana mucosa, glândula

salivar, transplante de membrana amniótica)

 

 

Referências:

 

Dry Eye Workshop (DEWS) Committee. 2007 Report of the Dry Eye Workshop (DEWS). Ocul Surf. 2007;5(2):65-204.

 

Behrens A, Doyle JJ, Stern L, et al. Dysfunctional tear syndrome: A Delphi approach to treatment recommendations. Cornea 2006;25:900-7

 

Autor Pedro Menéres

Publicação em Jornal Publico 2010